Quedas



Em 2001, integrei um projecto do Visões Úteis do qual nasceu o espectáculo “Orla do Bosque”. Nele, um orador permanecia de pé diante de um púlpito durante toda a representação debitando um texto do qual se ouviam algumas partes.
Esse texto (e a peça inteira) é resultado dos vários encontros desse ano de trabalho (Tonino Guerra, Theo Angelopoulos, Daniel Liebskind, STAN, Gregory Motton...) e de múltiplas influências (algumas óbvias, como o Fight club, do Chuck Palanyuk).
Transcrevo-o 17 anos passados, assumindo a minha parte de responsabilidade nalguns clichés e fórmulas pouco conseguidas (para o meu gosto de hoje) por me sentir incomodado com a pertinência do dito. Se a forma justificaria uma limpeza, o conteúdo queima mais por escapar a grandes anacronismos. Se todo o mundo é composto de mudança, como raio ainda não juntamos as vozes se o dia envelhece a passos de gigante?


Discurso do Orador
Um imperador romano contempla o Coliseu acabado de estrear. Nesse momento, aquela construção é para ele eterna. Nunca imaginará as ruínas de hoje.
É compreensível essa incapacidade de conceber a ruína do que vê: para o imperador, o império representa a perfeição, tal como ele a conhece e concebe.
Para ele, o coliseu jamais cairá.
De facto, naquele momento, Roma é a capital do desenvolvimento económico, social e “científico”. Cobriu de estradas a Europa, criou leis e calendários, absorveu culturas e impérios. Empurrou os Bárbaros para fora dos seus limites, conservando alguns como escravos.
A história pertence ao imperador e a fé no progresso é inabalável.
O futuro é um dado adquirido.

O futuro afirma-se em cada nova conquista, no sistema de numeração, na organização dos exércitos, …

(…)

Roma foi, portanto, a capital de um sistema engenhoso e a vários níveis genial de organização dos vários espaços: social, cultural, urbano, religioso, …
É esse desenvolvimento e essa capacidade inventiva que nos permitem hoje rasgar os céus com perfeitas torres de vidro com dezenas de pisos.
Hoje como então, quando o Presidente do Conselho de Administração de uma qualquer multinacional espreita a cidade do escritório instalado no último andar de um arranha-céus em Wall Street, não imagina que o brilho espelhado da torre se afundará com o tempo.
Também para ele é inconcebível a inevitabilidade da ruína.

E contudo, já os Romanos tinham erguido o seu império sobre as ruínas do Grego que, por sua vez, nasceu do colapso…
(…)

Todos os impérios caíram.
Todos os impérios caem quando se tornam arrogantes.
Também a arrogante torre do Conselho de Administração cairá. Como caíram os Bárbaros, os Otomanos, os Mouros, os “Ming”, os Portugueses.

Em todos, o declínio começou com essa atitude arrogante, com esse momento em que o conforto do poder retirou as incertezas ao futuro: quando já se está tão seguro de que o fim não existe, a necessidade de ousar, de repensar, de ver o avesso morre.
Talvez por crescerem sobre as ruínas do anterior dominador, os vários impérios crescem na convicção de que o patamar da perfeição absoluta é este que desenham. E que o progresso está para sempre encerrado nas definições seguras de quem logrou destituir o anterior amo.
E de amo em amo, construímos a História.

(…)

Hoje, vivemos o pior dos tempos.
Substituímos a utopia pela busca do conforto fácil.
Derrotámo-nos a nós mesmos da maneira mais fácil: pela velocidade.
Começamos a viver uma vida lateral, vemos de relance pelo canto dos olhos, mantemos a televisão ao nível do olhar, observamos as legendas a passar horizontalmente no ecrã.
Aquilo que se aproxima, vê-mo-lo por um espelho retrovisor lateral.
Acreditamos em valores em que não confiamos.

(…)

As cidades sofrem hoje uma crise de identidade que, ao mesmo tempo, provoca e reflecte as assimetrias sociais, a cultura da exclusão social, os guetos para ricos e pobres, com regras e escolas próprias.
Resultado da ditadura do automóvel, transformaram-se em locais de trabalho, inundadas de carros durante o dia e autênticos desertos de betão depois das oito.
Atirou-se o lar para subúrbios gigantescos, desenvolvendo-se de forma autónoma e quase sempre irracional, com zonas bem demarcadas para os bairros sociais, os apartamentos da classe média e os condomínios fechados dos mais abastados.
Vigora a lógica do vídeo porteiro e do jardim de pedra para escamotear a urbe de cimento.
Fechou-se a vida em apartamentos exíguos e desconfortáveis.
Apagou-se o espaço público do léxico urbano. Entregamo-lo a governantes para que o decorem e preservem sem mácula.
Esterilizou-se a praça com pedra inerte, por onde a vida passa mas não se instala. Limitou-se a comunicação ao colorido do grafitti.
O ruído que se ouve é o de uma multidão de monólogos fruto da mais hedionda subversão de conceitos:
A mentira adoptou o rebelde e o radical como conceitos pret-a-porter, esvaziando-os de sentido, transformando-os em arquétipos inócuos, em caricaturas.
Escoou as palavras que a podiam magoar.
O homem que se ergue das lajes e expõe a voz ao Sol, fá-lo consciente da memória, recusa a certeza do futuro, assume a dívida para com o outro.
A voz que desligou o televisor acredita na ruptura. É ridícula.
E assume-o .

(…)

Precisamos de mais concentração para comer uma refeição do que para ver televisão e quando a vemos, ficamos passivos e tensos, sem qualquer capacidade de concentração.
A nossa capacidade de distinguir sabores anula-se pelo consumo massivo da pasta homogénea que nos servem em diferentes cores mas sempre com o mesmo aroma.
A televisão debita um amontoado disforme de lixo criteriosamente produzido. Serve à la carte o mais abjecto material sexual obsessivo, descrições coloridas de brutalidades e atrocidades várias, análises técnicas e profusamente documentadas das mais sangrentas experiências e vivências, numa avalanche de informação que atordoa a mente. Serve-nos o mundo em função de shares, patrocinadores e directores de Marketing.
Simultaneamente, mostra-nos o nosso cantinho cor de rosa embrulhado no pacífico romantismo das revistas do Jet7.
Leva-nos a crer que um dia estaremos nós no ecrã, milionários, lendas de cinema e estrelas de rock. Mas é mentira.
Lentamente, vamo-nos apercebendo disso.

Vamo-nos apercebendo que o céu azul é um cartão pintado pelo publicitário, o mago encarregue de nos fazer desejar aquele carro, com aquelas roupas.
A publicidade é a máquina do desejo. Leva-nos a ter empregos que detestamos para comprarmos as merdas de que não precisamos.
As coisas que possuímos acabam por nos possuir.
Nós não somos o dinheiro que temos. Nós não somos o carro que guiamos. Nós não somos o conteúdo da nossa carteira.
Talvez aqui termine o reino da publicidade, na realização do seu maior fantasma: não servir para mais nada, apenas para a promoção de si própria.

A colonização…(pausa) a colonização acontece quando se quebram os símbolos e os elos que definem uma cultura. Eis a situação em que nos encontramos. Somos a primeira civilização na história da humanidade que se colonizou a si própria.
Não temos um âmago que possamos amar.
Chegámos ao ponto em que é um acto de resistência ter uma família, educar filhos, fazer opções, desligar o televisor.

(…)

… Não se pode dizer que haja vida depois dos 40. Há Lindor e Retinol C mas já não se pode comer salsichas e atum como quem faz sexo. Já não se faz sexo como quem come atum. E ninguém quer ficar com aquele corpo de depois dos 40. ninguém quer carregar aquele corpo que tem prioridade nos transportes públicos, por compaixão…

… e é sempre bom sair, viajar para longe, mergulhar no exotismo das paisagens. Ter a certeza que o postal mostra as ruas típicas sem pedintes e que o hotel serve o mesmo whisky que há lá em casa. E no fim, trazer aqueles sabonetes pequeninos. Para que todos saibam que estivemos ali…

… é cada vez mais importante ser-se independente. Cada vez mais cedo. Ser-se capaz de usar avental ou encomendar pizza e escolher um vinho quando os amigos vão lá casa. Porque é muito aborrecido passar as noite sozinho…

… vivemos um tempo de fronteira: somos os filhos do meio da História. Não temos nenhuma Grande Guerra nem nenhuma Grande Depressão. A nossa grande guerra é espiritual. A nossa grande depressão é a nossa vida…

… somos todos juízes e somos todos culpados, uns perante os outros. Todos cristos à nossa reles maneira, crucificados um a um. Sempre sem saber.
Sem nunca nos apercebermos que somos feitos da mesma matéria orgânica decadente de tudo o resto. Nós somos a merda que canta e dança neste mundo…

(…)

Partir e procurar o equilíbrio no movimento. Absorver o que fica para lá do corpo, o oásis no meio do deserto: a nossa casa, o espaço em que conseguimos o nosso equilíbrio. O nosso reino.
Procurar esse espaço na poesia do instante, na irrealidade do movimento. Saudades do futuro.
Aceitar essa incessante busca da Pedra Filosofal.
Recusar a inevitável perversão do nosso espaço pelas mãos sujas que o apertam.
Mas, ainda assim, partir em busca desse reino que talvez nunca chegue.

Os artistas limitam-se a participar na celebração do mundo que deviam mudar. Mas a arte tem de ser um acto de resistência, tem de celebrar a vida. Infelizmente, hoje não há nada para celebrar. Celebrar é fazer parte da Mentira.
Temos de fazer arte mesmo assim. Não é brilhante, é o mundo que temos.

 

Casa do povo



Quase sete anos depois, descubro novas dimensões da natureza policial da república francesa e com maior espanto me confronto com a naturalidade com que esta foi integrada na vida de cada um.
A deriva acumula um histórico já pesado, vem de antes dos atentados contra o Charlie Hebdo, alimentada a cada golpe pelo negócio securitário (um negócio para quem vende material, tecnologia e serviços a quem necessita do poder da força por ser incapaz de afirmar a autoridade que adviria da representação democrática – pequerruchinha, cada vez mais ínfima, com um presidente-rei eleito por menos de um quinto da população, eleitos que acumulam cargos e funções como medalhas na lapela, deputados a tempo parcial).
A introdução gradual de controlos vários à entrada de estabelecimentos comerciais ou espaços públicos, de militares armados a patrulharem ruas e gares, os anúncios cada vez mais omnipresentes de que “o exército recruta”, os cartazes sobre como reagir em caso de ataque, o discurso exsudando testosterona de gentalha pequena, ridiculamente pequena, no poder ou ambicionando lá chegar. Tudo isto, mais tudo o resto (e seriam muitos posts para cada tema) afinado para reforçar a segregação classista sobre a qual estão construídos a sociedade e o estado franceses. Porque, evidentemente, um documento de identificação tem valores diferentes consoante a nacionalidade que lá vem estampada, tanto quanto o valor cidadão de um nome está indexado ao nível de melanina da pele e à indumentária usada.
Não é muito diferente da estrutura vetusta e imóvel da sociedade portuguesa (relembro que o dinheiro e o poder estão concentrados há mais de um século nas mesmas famílias, conforme demonstrado em “Os donos de Portugal”). A diferença reside porventura numa incorporação mais vasta, intrínseca e ao mesmo tempo mais assumida da organização medieval das gentes: um sistema que preserva elites que se reproduzem entre elas para garantirem aos demais que vivem num sistema justo, equilibrado, sem classes.

Em Marselha, faz quarta-feira um mês, dois imóveis do centro da cidade ruíram matando oito pessoas. Ninguém ainda se desculpou ou assumiu responsabilidade política ou moral, apesar de um dos imóveis ser propriedade pública, de haver relatórios técnicos velhos de 10 anos que alertam para problemas estruturais sérios em vários bairros da cidade, de haver uma quebra evidente do contrato entre cidadãos e seus responsáveis na gestão da coisa pública e do que não é público nem privado, mas de todos e cada um.
Seguiram-se marchas e juntaram-se protestos. De todas as vezes, a coisa terminou com gás lacrimogéneo e/ou perseguições e agressões pela BAC – Brigada Anti-Criminal, tipos que se infiltram nas manifestações, identificados ou não, e se dedicam a amansar as hostes a cacete.
No Sábado, à mobilização dos coletes amarelos, mais uma convocada pela sindical CGT, juntou-se a “marcha por uma habitação digna”. Foram mais de 12.000 pessoas a percorrer parte da cidade, bloqueadas pelo Corpo de Intervenção a uns 50 metros da câmara municipal, espaço a todos os níveis simbólico.
Chamou-se assassino e reclamou-se a demissão do presidente da câmara, como antes do presidente-rei.
Não demorou muito a que as “forças da ordem” disparassem granadas de gás lacrimogéneo sobre a multidão que, segundo os vídeos disponíveis, foi dispersando em relativa tranquilidade. Evidentemente, houve quem reagisse de modo mais exaltado. Queimaram-se decorações de natal na zona do porto e, à medida que a Polícia foi empurrando os manifestantes mais coriáceos avenida acima, foi montando barricadas, às quais se respondeu com mais vandalismo: um carro da polícia a arder, uma montra partida, contentores em chamas um quilómetro e tal para lá do fim do cortejo. Numa rua lateral à avenida, uma senhora de 80 anos chegou à janela do seu quarto andar com intenção de fechar as portadas para se proteger do fumo venenoso da polícia. Recebeu os estilhaços de uma granada de lacrimogéneo. Foi operada na sequência dos ferimentos. Morreu hoje. Será, portanto, a nona vítima óbvia (os que morrem nalguma espécie de indigência não contam) do poder público francês em menos de 30 dias, em Marselha.
Em Tours, um jovem está em coma depois de ter recebido uma bala de borracha na cabeça.
Dois outros manifestantes viram uma das mãos amputada por granadas. Sim, a polícia de intervenção francesa utiliza granadas. Só no Sábado e só em Paris foram usadas 339 granadas GLi-F4 (engenhos explosivos, brinquedos de guerra), para lá das 7940 granadas de gás, 776 cartuchos de balas de borracha e 140.000 litros de água disparados. Sendo dados recolhidos pelo Le Parisien, vamos assumir que não se trata de propaganda anarquista.
Que o Le Monde tenha noticiado “Tumultos em Paris e em França” para falar do que aconteceu nos arredores do Arco do Triunfo ilustra bem como este é um estado feudal, com o castelo na capital intra-muros e a plebe ignota e ignara espalhada pelo resto do território. Um Estado em que no ano preparatório das Grandes Escolas (ciência política, engenharias) os alunos são recebidos com um “messieurs, mesdames, vous êtes l’élite de la nation. Et à la fin de l’année, juste la moitié d’entre vous poursuivra”.
E a educação nacional ensina desde pequeninos a compreender e a aceitar este feudalismo. O que, na verdade, corresponde a assumir que cada um tem o seu lugar e os senhores do Corpo de Intervenção, que recebem ordens de um senhor comandante, que responde a um senhor perfeito, que se articula com os senhores presidentes de câmara mas também com os senhores presidentes da Região, e o ministro da tutela, que responde ao senhor primeiro-ministro, que responde ao senhor presidente-rei da nação, todos eles têm uma missão muito precisa. Um perímetro de actuação muito bem definido. E um lugar claro neste mundo (e no outro, para os crentes). A minha esperança é que o povo se aperceba em algum momento que essa rigidez é, justamente, o ponto frágil de todos eles. Movamo-nos nós, que o alvo é fixo.

Palavras chifrudas


Imagem do incrivelmente belo "Idee", de Frans Masereel


E três bocadinhos de “The noise of time”, do Julian Barnes, às voltas com a vida de Dmitri Dmitrievich Shostakovich:

Palavras chifrudas 1 – “poeta”
He liked to tell the story of Tinyakov. A handsome man, a good poet. He lived in Petersburg and wrote about love and flowers and other lofty subjects. Then the Revolution came, and soon he was Tinyakov the poet of Leningrad, who wrote not about love and flowers, but about how hungry he was. And after a while things got so bad that he would stand on a street corner with a placard round his neck reading POET. And since Russians valued their poets, passers-by used to give him Money. Tinyakov liked to claim that he had earned far more Money from begging than he ever did from his verses, and so was able each evening to wind up in a fancy restaurant.
Was that last detail true? He wondered. But poets were allowed exaggeration. As for himself, he did not need a placard – he had thre Orders of Lenin and six Stalin Prizes round his neck and ate in the restaurant of the Union of Composers.

Palavras chifrudas 2 – “revisionismo”
‘Well,’ he said, ‘let’s put all those official questions to one side. Instead, I’ll ask you this: what is Revisionism?’
it was a question even he could have answered. Revisionism was so loathsome and heretical a concept that the word itself pratically had horns growing out of its head.
The girl reflected for a while, and then answered confidently, ‘Revisionism is the highest state in the development of Marxism-Leninism.’
Whereupon he had smiled, and given her the best mark possible.

Palavras chifrudas 3 – “consciência”
I shall therefore pursue my carreer
By trying not to pursue one.

These verses both comforted and questioned him. He was, for all his anxieties and fearfulness and Leningrad civility, at base a stubborn man who had tried to pursue the truth in music as he had seen it.
But ‘Career’ was essentially about conscience; and his own accused him. What use, after all, is a conscience unless, like a tongue probing teeth for cavities, it seeks out areas of weakness, duplicity, cowardice, self-deception?
 

questões de fé


imagem e objecto disponiveis aqui


Interrompo o silêncio deste salão para lembrar que o universo mudou na semana passada. Falo, evidentemente, da assembleia do Comité Internacional para os Pesos e Medidas. Fez-se algum alarido, muito sorriso condescendente pelo êxtase dos geeks que se dedicam a estas minudências, muito pouca reflexão sobre os cimentos da nossa existência.
Admito que esta é uma das questões que mais me emociona no domínio da ciência, para qual me mantenho bestialmente leigo, apesar da licenciatura em matemática e uns quantos amigos doutores-por-extenso especializados em detalhes fascinantes do grande Lego do universo. Será o meu limitado domínio científico a causa desta coisa emotiva, mas o facto é que ela existe e eu sinto-a bem entrincheirada nas meninges. A ver se me explico: as unidades de medida, mais do que uma espécie de declinação da taxonomia aplicada a ciências que medem, constituem um corpus em si mesmo, um edifício que exige uma dose considerável de fé nos axiomas de base (as unidades e o modo como as definimos). Estas unidades e a sua legitimidade são, por isso, o garante de tudo o resto e obrigam a que acreditemos piamente na sua validade, por um lado e, por outro, que todos as utilizemos da mesma forma. Para cismas, já bastam as jardas e o protestantismo inglês.
É que a ciência, no fim de contas, é um animal tão feito de rigores quanto de convénios, regras de etiqueta e convicções profundas.
Mas voltemos ao que se oficializou na semana passada.
Até agora usávamos um objecto-padrão para o quilo ou o metro, assumindo-os invulneráveis às alterações trazidas pela poeira do tempo ou pelas micro-amolgadelas que estes totems e suas réplicas poderiam eventualmente sofrer (ou então fechávamos os olhos a essas possibilidades, para tranquilizar o espírito e os cálculos).
Mas desde a semana passada que, para o quilo como já antes para outras unidades, transitaremos para definições que procuram tudo fazer depender de constantes físicas, entidades que consideramos imutáveis e invariáveis: uma certa ideia de Deus (se me permitem a blasfémia).
Um quilo ou um metro passam a ser uma relação precisa com algo que estimamos constante, alheio a flutuações da matéria, numa demonstração da justeza (intelectual) do sistema proporcional (aquele que nos dá as medidas sempre em relação a qualquer coisa).
E assim chegamos, resumindo, a que nada é o que quer que seja por si mesmo: tudo existe / se mede / é, sempre relativamente a outra coisa (e por extensão, cada um de nós relativamente a outrem...).
Neste ponto, os mais crentes assumirão que as ditas constantes físicas são-no de facto (constantes). Já os cultivadores da dúvida (metódica ou apenas higiénica) ficam contentes pela justeza de se dizer que um quilo corresponde a uma proporção de uma determinada quantidade de energia (se esta variar, o quilo fará idêntica ginástica e o edifício permanecerá inalterado aos nossos olhos).
Todos felizes, portanto, cada um na sua fé, no momento em que o universo, tal como o contamos, passa a ter contas ajustadas de outro modo. Por exemplo, no caso dos medicamentos e outras criações à base de micro-micro-porções ou então nas aventuras gigantescas, pesadas demais para que o espírito as abarque, como algumas bombas que por aí se fazem e lançam.
Entretanto, Deus, constante, bocejará em equilíbrio absoluto, imutável e sereno.

os palácios dos planaltos


Fotografia do Pierre Isnard-Dupuy

Em Marselha há uma praça conhecida como “La Plaine”, embora o nome oficial homenageie Jean Jaurès, um dos pilares da esquerda francesa do início do século XX (assassinado em 1914 por preferir a insurreição à guerra). É a maior praça da cidade, um território tão grande quanto complexo: na multiplicidade de funções (parque de estacionamento, feira, esplanada de cafés, terreno de jogo, retiro de toxicómanos), na circulação (movimento marselhesmente desregrado de todo o tipo de viaturas entre eixos importantes da cidade), nos quarteirões que a limitam e se abrem para lá de cada aresta do rectângulo.
Inclui, ao centro, um pequeno espaço verde fechado com grades e uma quarentena de árvores (abatidas na última semana).
O município, através da agência municipal para a gestão urbana (SOLEAM), decidiu remodelar a praça. No caderno de encargos escreveu, sem pruridos, que o objectivo é “subir o nível”, o que, como disse o gestor da SOLEAM (entre outras observações dignas de registo), significa que “alguns têm de partir para que todos possam ser integrados”, um malabarismo discursivo que só espanta pela franqueza do alto cargo.
Marselha, cidade fracturada como poucas, é um território de radical afirmação de pertenças e identidades, moldadas por múltiplas forjas, mas evidentes, coriáceas, de sotaques orgulhosos.
Foi assim que, ao simulacro de “consulta popular” sobre o projecto de “renovação” lançado pelo poder público, o povo respondeu com uma “Assembleia da Plaine”, espaço de debate e acção auto-organizado, que milita por outro tipo de vida em comunidade, que recusa que o progresso seja sinónimo de exclusão, de cedência a uma ideia de cidade subjugada ao acolhimento de turistas.
Desde o início que se mobilizam os contestatários do projecto e do processo, contra as respostas ao mesmo tempo acintosamente francas sobre os propósitos dos mandantes e despudoradamente hipócritas sobre a disponibilidade para integrar os habitantes.
A cada iteração, a coisa vai-se afeando e, como na ZAD que ocupou os terrenos previstos para a construção do por fim abandonado aeroporto de N.D des Landes, o corpo de intervenção da polícia nacional passou a fazer parte da paisagem, sobretudo desde que as máquinas chegaram à praça para avançar com “A Obra”, há coisa de duas semanas. Boicotes e ocupações várias, manifestações de mais de duas mil pessoas, manifestos assinados por gente com nome sonante cresceram com a mesma energia dispensada, do outro lado, a abater as árvores que adornavam a Plaine.
A mais recente resposta do grande chefe da SOLEAM chegou esta manhã, no tom sério de quem se leva a sério: “para garantir a segurança, levanta-se hoje uma paliçada de 2,5 metros de altura em torno da praça”. Consciente do impacto visual e económico sobre o comércio da zona, acrescenta que os comerciantes serão indemnizados.
Acontece tudo isto na que é considerada como segunda cidade do hexágono, no momento em que no Brasil é eleito presidente um fascista que não escamoteia ao que vem (como antes Salvini fizera em Itália, ou Orban na Hungria) ou que a extrema-direita alemã chega ao último parlamento regional onde ainda não estava representada. Há, em paralelo com estes movimentos pavorosos, o ressurgimento de uma consciência cidadã que é evidente no crescimento do voto nos Verdes ou no Die Linke (na Alemanha), ou nas organizações que ganham mais visibilidade e capacidade de acção. Mas são progressos que talvez demorem tempo demais a solidificar para conseguirem ripostar com a intensidade devida ao ataque de que somos alvo.
A sensação de estarmos a viver um movimento de massas é indiscutível e eu temo que, em França como em Espanha ou na Alemanha (no rectângulo talvez demore mais algum tempo), os verdadeiramente maus cheguem ainda mais depressa ao poder constitucional.
Nessa altura, suspeito, dir-nos-ão os megafones e os politicadores que nos apascentam, que o problema está no populismo e nas notícias falsas. De pouco valerá, então, evocar o sentido único que nos impuseram, pelo que fica o registo (uma vez mais).

aula de respiração




Por mais de um motivo é extraordinário o trabalho do Tiago Rodrigues enquanto dramaturgo e encenador. Ontem, rendido ao “Sopro”, confirmaram-se umas quantas, a começar pela capacidade de construir uma peça que cosa as margens em que se reflectem, de cada lado, teatro e vida. É algo assim como dispor de um filtro que importa para a cena a (in)tangibilidade do “mundo”, dotando-a dos códigos, formas e tons dramáticos e, inversamente, conferir à representação uma dose de verosimilhança que faz dos sonhos corpos quentes.
É um teatro que ama o teatro e, portanto, se constrói com os elementos essenciais da arte e da dramaturgia em particular: a memória, as palavras e os silêncios que as unem, o espaço modelado com o rigor despojado da delicadeza, isto é, aproveitando todo o potencial narrativo e simbólico do desenho de luz, som e cenografia sem espalhafatos acessórios.
O teatro do Tiago Rodrigues é, assim, uma casa de espectros que não nos deixam soçobrar na lassitude do conformismo. São, portanto, espectros de resistência, que impelem à vida, uma casa impermeável à ruína porque construída de poesia, o mais básico dos elementos.

Deixem o poeta em paz


imagem retirada do site do Museu Thyssen-Bornemisza

Herberto Helder foi um autor reconhecidamente cioso da obra própria, que em contínuo decantou e rescreveu, metido a Penélope de versos. De um artista assim, tão metódico a arrumar o que produzia, pode supor-se que se algo decidiu excluir do formato livro, terá sido por algum honorável motivo.
A dimensão do poeta e a civilização escrita que deixou aos vindouros justificam talvez que os que lhe sobrevivem tenham acesso a parte do material que o próprio escolheu não editar em livro. Pelo que me toca, mais além do assomo fugaz da curiosidade, é-me quase estrangeira a necessidade de remexer as intimidades da criação alheia para satisfazer o fetichismo da idolatria ou a análise estudiosa. Concebo portanto que surjam obras póstumas e livros impensados quando os autores ainda eram viventes, mas enfrento essas edições com disciplinada desconfiança. Assim, foi entre a admiração pelo autor de “Photomaton & Vox” e de “Os passos em volta” e a curiosidade pelo que seria o seu trabalho de cronista que me lancei ao volume “em minúsculas”. Por compilar textos já publicados e organizar de algum modo a cronologia da passagem de HH por Angola, pareceu-me ter o potencial de acrescentar algo onde a publicação recente dos cadernos de rascunhos poderia considerar-se quase oportunista.
Lido o livro, amarga-se-me a boa vontade.
“em minúsculas” peca por falta de limpeza e eventual enquadramento para escapar à sina de memorabilia para groupies. Algumas das crónicas aqui reunidas são bom exemplo do virtuosismo do autor no manejo das palavras e das ideias mas outras não passam de apontamentos datados, sem fôlego para resistir ao dia seguinte à edição do jornal. Pior do que isso, mostram debilidades como o vício irritante de rematar os textos com uma frase-a-servir-de-ponto-final. São prementes muitos dos temas que HH tocou nestes textos, e é exaltante alguma desta prosa, mas o total está longe de justificar um volume assim, de quase 200 páginas agasalhadas na sóbria capa dura, como um tesouro resgatado para os HHófilos. No total, as pepitas que se desgranam não chegam para construir uma imagem da imagem que o autor teria do Portugal colonial de 1970 nem acrescentam chama ao fogo da sua literatura (antes pelo contrário), o que é um péssimo serviço a quem tanto nos deu.
Herberto Hélder merece talvez que o deixem em paz, que às vezes é uma boa forma de não ser condenado à morte. 

a beleza pode ser um longo inverno



“A Árvore” começa afastando-nos dos garatujos efémeros de um miúdo no vidro embaciado da casa-mãe para nos aproximar do sono do velho deitado no mesmo espaço, em que agora falta o calor, a presença da mãe e onde a luz interior foi substituída pelos clarões irregulares da guerra que se adivinha e ouve no exterior.
Ambos os personagens deambularão pelo inverno até se cruzarem (de novo), confrontados às inquietudes que permitem sonhar uma certa paz interior.
Nestas duas figuras, cada uma projecção da outra, a vida inteira, o tempo inteiro se concentram, como num tronco de árvore seccionado em que os círculos concêntricos das estações só na aparência se distinguem.
A extrema beleza do filme do André assenta em elementos tangíveis, manigâncias técnicas (que não domino) como o rigor dos planos e a organicidade da montagem, a delicadeza da fotografia, a paisagem sonora e a forma como se relaciona com as imagens, ampliando o universo. Mas está, essa beleza, no que há de mais intangível, na alquimia de tocar no que não se vê usando todas essas tralhas do artesão.
Fez-me pensar numas quantas coisas que li no “Le temps scellé”, de Andrei Tarkovski (e que me perdoem vir para aqui com citações quando estou a falar de algo que me comove), no que é a arte, o belo e o mester de cineasta (e do artista, por extensão). Por exemplo: “Qual é então o essencial do trabalho de um realizador? De esculpir o tempo. Tal como o escultor, com efeito, toma um bloco de mármore e, consciente da forma que daí há de vir, dela extrai tudo o que não lhe pertence, o cineasta toma um “bloco de tempo”, uma massa enorme de factos da existência, da qual elimina tudo aquilo de que não necessita, e conserva apenas o que deverá revelar-se como as componentes da imagem cinematográfica.”
E num filme como “A árvore”, uma história de guerra(s), acrescentaria, do mesmo livro, “O homem é dotado de memória enquanto ser moral. É ela que semeia nele o gérmen da insatisfação.”
 

descrição térmica da espécie em quartos dramáticos e matemáticos, ruminantes e filosofantes


imagem do caderno de viagem de Lineu, retirada do site nela indicado.

Pour ce qui est du chauffage, les écrivains ne font qu’extrêmement rarement chauffer leurs chambres dramatiques et mathématiques, ruminantes et philosophantes. En effet, ils sont d’avis que s’ils doivent transpirer en été, ils peuvent fort bien, pour changer, geler un peu en hiver, et ils s’accommodent du chaud et du froid avec un talent merveilleux.

Do conto “causerie”, incluído no volume Petite prose, de Robert Walser 

A Senhora Amélia, da casa em frente

De casa dos meus pais, sempre olhei para os vizinhos da frente como gente sem medo. Talvez por devaneio de infantil mitificação, mas pareciam-me até mais intrépidos que os meus avós. Na minha pueril imaginação, vivíamos no meio de um bosque carregado de animais selvagens e barulhos que eu preferia não identificar, numa encosta violenta por onde escorria, no inverno, tudo o que de mais impossível a televisão me permitia imaginar. E se, por exemplo, os meus avós ou os meus pais me transmitiam total segurança quando junto deles, os vizinhos da frente tinham, para mim, um controlo suplementar sobre os fenómenos telúricos e as efabulações de espíritos e outros nevoeiros. Recordo o ar de genuína curiosidade que podia levar a Sr.ª Amélia a dormir no alpendre ou no banco do carro para verificar se sempre passava por ali o cavalo sem cabeça que diziam correr a nossa estrada em noites de lua cheia. Da mesma forma que descrevia como, tanto tempo antes de mim, apercebendo-se que uma defunta em velório de pobre estava desprovida de roupa interior, fez o que foi preciso para que o corpo descesse ao pó levando calcinha, ainda que emprestada por ela e ali transferida à pressa, em nome da discrição e dignidade.
A Sr.ª Amélia, vizinha da frente, tinha um riso grande e uma sinceridade que enchia as frases de palavras impudentes, que afastavam o medo cheias de vida, essa que, chegado o momento, sempre nos leva.